Como se já não bastasse, quando o amor acaba, há também de se fazer a partilha da cidade. Entre os caminhos onde o casal passeou de mãos dadas, há de se estabelecer os que ficam contigo e os que são dele; em se tratando de bares e restaurantes, quem apresentou o lugar ao outro tem mais direitos; quanto aos cinemas, gafieiras, praças e parques, ficam com quem mora mais perto. A partilha da Lagoa (Epitácio ou Borges) e da areia da praia (Ipanema ou Leblon) pode servir de barganha para quem se considerar injustiçado.
Mesmo a par da divisão, depois do fim, a cidade se parece com um molde de corte e costura, desses que vêm encartados no meio exato das revistas de figurino, em papel jornal. O riscado verde é o seu e corresponde aos lugares em que você pode ir com tranqüilidade. Não costuma ser vasto - talvez se resuma à casa da sua mãe e ao salão onde você faz as unhas. O traçado amarelo abrange os locais onde há chances de esbarrar com ex, ou com o melhor amigo do ex, ou com parte da família dele - o que pode levar à comoção igual ou maior a de um esbarrão com o propriamente dito. O risco vermelho significa perigo: inclui os lugares preferidos dele. Nesse caso, recomenda-se evitar o perímetro, se possível, com margem de segurança de um ou dos quarteirões, visto o alto risco de tripudiar de um coração já em frangalhos. Os traços pontilhados e tracejados do molde correspondem às áreas de "ex-ex", e, no momento, voltam a ser opção de diversão ou até colagem de cacos.
Ainda que o mapa se instale debaixo do seu braço, o risco do encontro é grande e cresce em progressão geométrica no passar dos dias pós-término. Afinal de contas, se nos últimos anos vocês freqüentaram os mesmos lugares, a mesma mesa do boteco e a mesma vaga do shopping, parece natural que, depois do fim, se encontrem, no mais tardar na semana seguinte, em um desses cenários.
E agora, ainda mexidos, esgueiram-se nas esquinas das ruas da relação, escaneiam todos os presentes na lanchonete, têm miragens, assustam-se em momentos em que, por misericórdia, não se quer dar de cara com o ex, o ex-bêbado, o ex-feliz, o ex-pronto pra outra, o ex com outra, o ex com a ex, o ex quando se está maltrapilha, o ex quando se está com herpes, espinha, chinelo, o ex quando se está com o cabelo sujo, o ex quando se está com um novo rapaz, o ex em qualquer lugar, a qualquer hora, no esplendor do seu papel de ex.
Tudo em vão.
O ex (título transitório, visto que já foi pretendente, passara a oficial e poderá ceder a posição para outros que hão de chegar, ou ainda retornar para uma das primeiras opções) não está. No restaurante de estimação, na livraria onde bate ponto, na locadora onde vocês tantas vezes brigaram na hora de escolher o filme, você podia jurar, mas o ex não está. O ex jamais estará onde você estiver.
Não é por acaso: trata-se de obra da santa, a Santa do Coração Partido.
É ela quem cuida, quem te faz mudar subitamente de idéia - pizza em vez de cinema. É ela quem te faz ir para o andar de cima, mesmo que você prefira o térreo. Que te manda sentar na área de fumantes, ainda que não fume. É ela quem te faz perder o sinal de trânsito ou o elevador, te faz voltar em casa porque esqueceu o celular. É ela quem erra o caminho e te faz dar mais uma volta no quarteirão, quem te bota venda nos olhos, quem te faz entrar na sala de cinema quando as luzes já estão apagadas, quem te leva para a esquerda quando você queria a direita, quem te enche de preguiça quando já está tudo combinado para sair e te dá vontade de comer massa mesmo que você adore carne. Tudo isso com um único intuito: evitar um reencontro indesejado.
No outro extremo, há também momentos em que você quer, ah, minha Santa, o reencontro é tudo o que se quer: você se arruma para encontrar o ex, como se tivesse um encontro marcado. Faz figa, escova, vai no lugar vermelho, onde ele sempre vai, na hora exata em que ele estaria tomando um café no balcão. E é batata: ele não está.
E, se ele não está, se aquiete porque a Santa do Coração Partido sabe o que faz - ainda não é hora. Amém.
Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.



