• Crédito: Reprodução


A Pedra dos Namorados
Pergunte ao oráculo se o seu amor é ou não é correspondido
Por Rosana Caiado • 24/03/2008

Depois da terceira noite de insônia, eram seis da manhã, quando arregalei os olhos e me dei conta do único remédio: preciso saber se você gosta, se você ainda gosta, se você um dia vai gostar de mim. Para ter certeza, só um jeito. Vou até a Praça XV e pego a barca das 7h10, a Vital Brazil. Setenta minutos e quinze quilômetros depois, estou na Ilha de Paquetá, onde passei boa parte dos primeiros anos da minha vida, em um condomínio de muro rosa, em frente à praia de José Bonifácio, ao lado do Lido, que tem muro azul.

Paquetá tem cheiro de cocô de cavalo. Hoje, eles usam fralda, mas não adianta muito. A rua, que na minha infância era larga, hoje parece estreita. Há taxistas que, em troca de três reais, pedalam por você até o outro lado da ilha. O passageiro pega vento no rosto e o cheiro do piloto nas fuças. O piloto é também uma espécie de guia e mostra o Cemitério dos Passarinhos, mostra o Parque Darke de Mattos, a Praia da Moreninha, a árvore Maria Gorda, aponta a quadra da Escola de Samba Silêncio do Amor e diz onde toca a Orquestra Devaneios. Quero aprender a tocar cello.

Vamos ao cinema? Vamos ver o pôr-do-sol? Vamos tomar sorvete de doce de leite com uma colher só? Vamos dormir atravessados na cama?

Em Paquetá, aluga-se uma bicicleta sem marcha (como todas deveriam ser), por duas horas pelo preço de três reais. Mais de vinte anos sem montar uma bicicleta além da ergométrica, sinto medo. Algumas pedaladas mais tarde, comprovo o ditado: não se esquece, e até em pé me arrisco. E tiro as mãos do guidom para atender o celular. Mas não é você.

Andar de bicicleta em Paquetá é como passear em Paris puxando um cachorro pela coleira - vira-se um deles, não um cachorro, mas um nativo. E vêm as lembranças que já não sei se são minhas ou roubadas. E a vontade de um dia andar pela Ilha de mãos dadas, algo que nunca fiz. Pai, mãe e amiguinhas não contam.

Pegava abricó e dava para a minha mãe. Arrancava flor e dava para a minha mãe. Juntava folhas de várias cores e fazia de almoço para a Barbie, que tinha o seu próprio condomínio, com sala, cozinha, quarto e marido, o Ken ou o Falcon - alternavam-se.

Havia esse desfile das meninas em traje de banho: biquíni e saída de praia, biquíni e toalha, biquíni e chapéu. Eu passava óleo no corpo e em seguida molhava a pele, para ficar coberta de gotinhas - o que eu julgava insuportavelmente sexy. Quase tão sexy como a minha fantasia de vedete para ir ao Iate Clube. Chegando lá, passava quatro horas jogando confete para o alto e depois pegava um montinho do chão e jogava de novo e me enfiava dentro da nuvem de confete e ficava com o cabelo cheio de confete, e abaixava e jogava o confete de novo até bater onze horas, hora de cair na cama e dormir. A única angústia que poderia então tirar meu sono era a da dor de ouvido, de tanto mergulhar no mar.

Quando o meu pai vendeu a casa, eu tinha nove anos e um pastor alemão.

Até que não tem jeito, não há mais caminhos que não circundem a Pedra dos Namorados, minha amiga de infância, que me viu brincar de roda e queimada, que me viu boiar dentro do pneu de caminhão, que me foi fiel outras vezes, mesmo sabendo que ainda não era o tal. Após rápidos porém sinceros cumprimentos, me viro de costas e penso em você, com uma pedrinha na mão direita, seu nome na cabeça. Vamos ao cinema? Vamos ver o pôr-do-sol? Vamos tomar sorvete de doce de leite com uma colher só? Vamos dormir atravessados na cama? Um, dois, três e jogo a pedrinha por cima da cabeça e quero descobrir o que o oráculo tem a dizer sobre o nosso futuro. Se a pedrinha ficar lá em cima, que sorte, se ela fixar morada no topo da Pedra dos Namorados, é batata: amor correspondido. Se cair, não, nada feito. É tudo muito rápido e não deixa dúvidas: a pedrinha rola pedrona abaixo até cair aos meus pés. Agradeço à Pedra dos Namorados, devolvo a bicicleta, entro na barca das 17h45 e venho direto para a cama, onde, depois de algumas lágrimas, voltarei a dormir sossegada.



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





bolsa de mulher no seu celular

downlevel description
This video requires the Adobe® Flash® Player. Download a free version of the player.


Compartilhe: Facebook Del.icio.us LiveSpaces RSS
Últimos comentários
Comentários (3)
  • keilabiscuit
  • Sabrina Jesus
  • mariapsg_geminiana


Para enviar sua resposta identifique-se ou então crie já o seu cadastro! É rápido, é fácil, é GRATUITO!




XML Assine nosso RSS