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Tendo como fundo a segunda grande guerra, a protagonista Liesel tem sua vida drasticamente transformada pelo que acontece na Alemanha nazista em sua cidade, a pequena e pacata Molching, próxima a Munique. Órfã, ela rouba livros, ou melhor dizendo, rouba palavras, rouba um sentido para tudo de ruim que uma guerra traz.
Embora o livro traga todos os componentes para ser um drama, o estilo de Markus Zusak, jovem autor australiano, acaba por nos apresentar uma visão leve e humanizada. No best seller "A Menina que roubava livros", as palavras que Liesel encontrou nas páginas do primeiro livro roubado, chamado "O Manual do Coveiro" (não se assustem, é assim mesmo, mas a delicadeza do texto elimina qualquer teor mórbido desta bela obra), seriam mais tarde aplicadas ao contexto da sua própria vida, sempre com a assistência de pessoas muito especiais: Hans Hubberman, acordeonista amador e amável e Max Vanderburg, o judeu do porão, o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar.
Há outros personagens na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito, sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está ao lado da menina e sempre testemunha a dor e a poesia da época é a nossa narradora. Aquela sobre a qual falei nas primeiras frases desta coluna e que um dia todos irão conhecer.
Mas ter a sua história contada pela Dona Morte é para poucos. Tem que valer a pena. E Liesel fez por merecer. A morte (permita-me abrir um parênteses aqui porque é impossível deixar de dizer como a sua narrativa é às vezes muito irreverente, bem humorada até e, noutros momentos, resignada em trabalhar tanto - imaginem só como deve ser duro para a morte uma guerra...) narrou tudo e devolveu à menina o que a vida rouba das pessoas em territórios minados. Não, não falo da guerra com armas de fogo, mas a guerra existencial de cada um de nós. Minas de mágoas, rancores e ódio.
A menina que roubava livros resgatava em palavras a dignidade e felicidade de estarmos vivos. E viver, mesmo com uma narração brilhante da morte, é algo maravilhoso.
Uma leitura imperdível, mas por favor, comprem, não roubem o livro, ok?
Serviço:
"A menina que roubava livros"
Editora Intrínseca
Preço médio: R$ 25,00
Liliana de La Torre é jornalista, carioca da gema, da clara e da casca, e mãe de João Paulo e Gabriel, suas grandes paixões. Bibliófaga, lê até bula de remédios com letras corpo 5. Começou a carreira na TVE Brasil, passou pelo Jornal do Brasil e foi assessora de imprensa por mais de dez anos. Atualmente, faz parte da equipe de Novas Mídias de uma grande agência. Apaixonada por Comunicação, diz que o mais importante não é o que se diz ou escreve, e sim, o que os outros interpretam.   Leia mais deste autor.
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