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A crise e os vinhos
Será que a crise mundial pode afetar até o consumo de vinhos?
Por Sonia Melier • 09/10/2008

Um amigo afirma que o segmento de vinhos é à prova de recessão, e que o tsunami de Wall Street não afetará muito o setor. Para ele, bons vinhos representam um estilo de vida, e não um luxo. "Sempre teremos bons vinhos por preços razoáveis", diz.

A julgar pelo topo da pirâmide, aquele composto por investidores e colecionadores, o otimismo do meu amigo pode até se justificar. Os leilões de vinhos finos raros, de casas consagradas ou de safras espetaculares continuam a acontecer num ritmo frenético. Em plena implosão de Wall Street, a Hart Davis Hart, leiloeira de Chicago, vendeu 1.745 lotes de vinhos premium e faturou mais de 11 milhões de dólares. As duas maiores casas leiloeiras norte-americanas, a Acker Merral & Condit e a Zachys continuam a ter ótimos desempenhos. O índice Liv-ex 100 (que compreende apenas vinhos blue chips de Bordeaux e da Borgonha) cresceu 9% em 2008.

Se a tormenta ainda não chegou nesse segmento milionário, aonde estará se concentrando? Um dos indicadores mais importantes está no setor de hotelaria e restauração. Em tempos ruins como esses, comer em restaurantes, viajar e ficar em hotéis são despesas imediatamente cortadas. Logo, com menos consumidores em restaurantes e hotéis, as vendas de vinho caem. Com o custo de combustível alto, também caem as viagens (inclusive de carro) e sofre o turismo enológico.

Segundo o instituto Nielsen, os negócios em bares e restaurantes norte-americanos vêm caindo há tempos. A freqüência cai, e os que aparecem bebem menos e mais barato (mais cerveja e apenas vinho da casa). O economista e crítico de vinhos Mike Veseth revela que em supermercados e lojas de vinho os consumidores já estão buscando os rótulos mais baratos. O segmento que mais cresceu nos últimos dois anos é o de vinhos a partir de US$ 10 - ou seja, a porção intermediária do mercado. O consumidor estava evoluindo em direção aos vinhos premium, "mas o ritmo de crescimento diminuiu consideravelmente: fica evidente que os clientes estão procurando vinhos ainda mais baratos". Agora, a fatia que mais cresce é a de US$ 4 e menos.

O custo de distribuir um vinho de, digamos, R$ 14, é o mesmo do que um de R$ 16. O lucro com o de R$ 14 apenas será menor. Logo, esse movimento descendente terá efeitos negativos nos lucros de produtores e varejistas. Com o inevitável apertão no crédito, sofrerão ainda mais.

Fazer vinho compreende decisões de longo prazo, mas viver de vinhos significa depender de compradores no curto prazo. Mike Veseth acredita que os problemas de crédito vão piorar nos próximos três anos, pois a economia tornou-se dependente de crédito rápido. E produzir vinhos é depender de crédito. Varejistas e distribuidores deverão ser levados a reduzir drasticamente seus custos e isso costuma equivaler a vinhos medíocres.

O economista Chistopher Ruhm, da Universidade da Carolina do Norte, é conhecido estudioso da relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e as recessões. Diz que as pessoas tendem a pegar leve durante tempos mais magros; seja porque têm menos dinheiro para gastar ou porque temem ficar mais vulneráveis em seus empregos. "Há uma clara evidência de que quando a economia enfraquece, as vendas de bebidas alcoólicas caem", ele afirma. Com menos dinheiro, as pessoas saem menos, passam ao largo de bares e restaurantes.

Para ele, o vinho parece mais bem posicionado do que as cervejas e os destilados: "Os consumidores de vinho tendem a ser mais velhos e mais afluentes". Segundo Nielsen, bares e restaurantes nos EUA já estão sofrendo uma brusca queda nos negócios, com menos clientes aparecendo, bebendo menos e mais barato. As pesquisas de Ruhm estão sendo confirmadas.

Porém, nas lojas, as vendas de vinho parecem continuar indo bem, segundo o mesmo Nielsen, com a recessão econômica tendo pouco ou nenhum efeito sobre a bebida. As vendas cresceram 4,7% num período de 52 semanas encerrado em 23 de agosto. E o segmento de melhor desempenho (10% de crescimento) foi o de vinhos mais baratos. Essa é a situação nos Estados Unidos. Acho que se reproduzirá em quase todo o mundo.

Está na hora, portanto, de os produtores aumentarem as ofertas de meia garrafa (375 ml), de contarem até dez antes de estabelecerem suas margens de lucro, e de não perderem de vista variedades fora do circuito Cabernet Sauvignon-Merlot-Chardonnay-Pinot Noir. Ou seja: dar uma maior chance às Malbec, Sangiovese, Zinfandel, Shiraz, Sauvignon Blanc, Muscat, Chenin Blanc. Como consumidoras, devemos pensar primeiro nos vinhos nacionais e nas novas e deliciosas variedades que nossos produtores - como a Vinícola Perini, por exemplo - estão oferecendo (a preços bem camaradas), como a Ancellotta, a Marselan e a Barbera.

Talvez meu amigo tenha acertado: quem gosta de vinho, vai continuar fiel, só que passará a comprar de olho nos preços. Sempre busquei preço e qualidade. E até que conseguia boas barganhas. Ter que descer mais alguns degraus nessa escala é que me assusta. Será que vou encontrar bons vinhos?







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