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Música é uma paixão mundial. Atrelada à tecnologia, ela ganhou ainda mais força ao longo dos anos. Atualmente, é difícil sair de casa e passar alguns minutos sem avistar alguém com um fone de ouvido. Tocadores de MP3, iPods e celulares com rádio fazem sucesso, principalmente entre os jovens. Mas será que o hábito de ficar tanto tempo com o som tão próximo ao ouvido pode prejudicar a nossa saúde? Segundo um estudo do Comitê Científico Europeu de Riscos à Saúde, o fone de ouvido favorece a perda da audição, que só seria percebida dez anos depois. Quem usa MP3 players ao menos cinco horas por semana, de acordo com a pesquisa, corre mais perigo.
Balela, dizem os mais entusiasmados. Ao ouvirem recomendações para deixar um pouco de lado o aparelho sonoro, os fãs de música alta preferem "se fazer de surdos". É claro que escutar um rock pauleira usando fones em vez de ligar as caixas de som no último volume é muito mais prático e cômodo, tanto para o ouvinte, quanto para quem não está a fim de ouvir. "É mais reservado. Às vezes quero ouvir algo em volume alto e não pretendo incomodar outras pessoas, por isso uso os fones - explica a estudante de Comunicação Social Rebecca Costa, de 22 anos. Ela passa, em média, três horas por dia com fones nos ouvidos, geralmente ouvindo rock no MP3 player ou no computador.
Rebecca conta que essa rotina acontece há cerca de dois anos, mas que o hábito de ouvir música alta com fones é antigo. Quando mais nova, gostava de discman (tocador de CD portátil) e radinhos de pilha. Mas Rebecca não está sozinha. Desde a invenção do walkman, nos anos 70, que trouxe a praticidade da "música portátil", que os fones de ouvido tornaram-se acessório comum na vida das pessoas - e, talvez, uma ameaça em potencial para os ouvidos dos mais desatentos.
O otorrinolaringologista Jorge Leite, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-RIO) e membro da Sociedade de Otorrinolaringologia do Rio, alerta para os malefícios que a utilização dos fones pode causar ao sistema auditivo. "O som no fone não deve ser percebido por quem está próximo do usuário. Nesse caso, o volume pode estar alto o suficiente para gerar pequenas ou grandes perdas na audição, dependendo do tempo de utilização", afirma o médico. De acordo com ele, existe uma tabela que indica os limites máximos de tempo recomendados para a exposição diária a certos tipos de sons, medidos em decibéis. Música no volume mais alto em fones de ouvido atinge cerca de 100 decibéis, e, por isso, não deveria ser ouvida por mais de uma hora por dia.
Renata Nazareth é outra que vive com os tais apetrechos aonde quer que vá. Assim como todos os seus amigos, ela comprou um tocador de MP3 logo que o aparelho se popularizou e, desde então, não sai de casa sem ele. Louca por música, a estudante também era adepta do walkman, e hoje chega a ficar seis horas por dia com fones de ouvido . "Tenho que ouvir música. Nunca senti nada, mas hoje procuro regular mais o volume pra não ficar tão alto".
Pequenos ou grandes - como escolher?
Um estudo realizado no ano passado pela Northwestern University, nos Estados Unidos, revelou que os fones de ouvido menores, mais utilizados em MP3 players, são mais prejudiciais do que os que cobrem toda a orelha, chamados de headfones. No entanto, já existem fones minúsculos que possuem controle de volume direto e outros que melhoram a qualidade do som ouvido a fim de que se evite o aumento do volume por parte do usuário. Estes últimos costumam ser do tipo intrusivo, ou seja, são introduzidos dentro da orelha.
Alan Silva, programador e músico, usa fones de ouvido tanto no trabalho quanto nas horas de folga. Apesar do uso constante, ele afirma que se preocupa não apenas com a qualidade sonora dos fones, mas também com os supostos efeitos nocivos à audição. "Recentemente, houve muitos processos nos Estados Unidos de pessoas preocupadas com possíveis problemas auditivos, e por isso criaram aparelhos com controle de volume. Mas acho que cabe a cada um ter a consciência e educação necessárias para se cuidar", observa Alan. "Eu tenho um fone intrusivo com noise cancelling, que garante 70% de redução de ruídos externos. Com isso, não é necessário aumentar o volume para ouvir melhor o que está tocando", diz o músico.
Segundo Alan, há muita diferença entre os fones de ouvido. Por este motivo, ele chama a atenção para as desvantagens de se comprar fones com preços mais baixos: "O barato pode sair caro. Se pegar um fone bom, que pode custar cerca de R$ 100, e um fone que se vende em camelôs, por exemplo, logo se nota a diferença nos sons agudos, médios e graves. Alguns não têm regulagem nenhuma".
Jorge Leite reitera que, embora os moldados na orelha tenham a vantagem de reduzir o som do ambiente, qualquer fone de ouvido, se mal utilizado, pode ser nocivo. Ele lembra que é importante ir a um médico especializado mesmo que, aparentemente, não haja sintomas de problemas auditivos. "É pouco freqüente a procura do médico por causa do uso de fones. Os jovens somente vão ao consultório quando sentem algum dano na audição. Quando isso acontece, já é tarde para alguma coisa ser feita além de se orientar a não abusar do volume alto. A prática clínica diária também mostra que a probabilidade de perda auditiva é maior nos homens que nas mulheres, pois eles costumam resistir mais a procurar um médico quando precisam.
Alguns profissionais, entretanto, discordam do alarde feito sobre os fones. O audiologista Aziz Lasmar, da Clínica Professor José Kós, no Rio, diz que a preocupação com os pequenos aparelhos sonoros é demasiada: "Os fones podem ocasionar problemas graves apenas para quem trabalha diretamente com isso, como os DJs, por exemplo. Não vejo problemas em outras circunstâncias", pondera.
Mas, como diriam nossos avós, cuidado nunca é demais.
Mônica Vitória   Leia mais deste autor.
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