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O seu olhar
Tudo começa e termina com apenas um olhar...
Por Rosana Caiado • 15/09/2008

Quando procurei seus olhos pela primeira vez, você estava de óculos escuros. Na terceira frase, nossa terceira frase, tomei a liberdade de tirá-los, como se fossem meus, como se você já fosse meu, como se um dia você pudesse ser todo meu, só meu - quem sabe, hoje*.

* No dicionário, ver "desejo".

Coloquei seus óculos entre os meus seios num presságio do que viria depois* e vi em seus olhos um homem com açúcar mascavo, mel e hortelã. A despeito de todo o carnaval, nossos olhares pertenceram um ao outro por uma longa seqüência de minutos, que, no compasso do meu coração, durou a vida inteira: flerte, beijos, amassos, eu-te-amos, alianças, mamadeiras, implicâncias e baralho aos domingos. Tudo começa com um olhar e, depois desse primeiro, viriam outros, tantos, dúbios, loucos, vermelhos, exaustos, inclusive o olhar que trocamos, ontem, antes de dormir.

Dou risada, pisco como nos desenhos animados, enrosco a cabeça no pescoço, quero fazer charme - não sei se consigo, mas me sinto em um daqueles momentos em que tudo faz sentido

* No dicionário, ver "sedução".

Se fosse permitido, poderia passar horas vendo o futuro em seus olhos*. Eu, e acredito não ser a única, aprecio o belo: observo seus olhos como quem está diante de uma obra de arte - o seu retrato na parede do meu quarto.

* No dicionário, ver "magnetismo".

E quando você me retribui o olhar, mesmo que por um só instante, lamento e festejo meus segredos revelados. Te entrego minha maior nudez*. Quando você, entre minhas pernas, confere meus olhos ou quando você me fita enquanto refoga na manteiga uma cebola ou quando você me encara no ensaio de uma briga, faço anotações mentais, nomeio e em seguida enumero cada um dos seus olhares, que compõem a minha já extensa coleção.

* No dicionário, ver "rendição".

O seu olhar embaça o entorno, como hoje cedo, depois do banho quente*. É como se, em um levantar de sobrancelhas (prometo apará-las ainda nesta semana), você tirasse meus pés do chão. E me tomasse para si. É como se, em um olhar, o mais demorado, você me pedisse a mão. E eu, em silêncio, respondesse com um suspiro.

* No dicionário, ver "vaporização".

Quando você me olha, poderia ficar paralisada até completar 100 anos*. Mas dou risada, pisco como nos desenhos animados, enrosco a cabeça no pescoço, quero fazer charme - não sei se consigo, mas me sinto em um daqueles momentos em que tudo faz sentido.

* No dicionário, ver "hipnose".

Até que um dia, a despeito de todo o carnaval, assim como começou, você vai me oferecer um olhar que até então será inédito, e seus olhos entrarão nos meus com o peso da última vez*.

* No dicionário, ver "dor".



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





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