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Louca paixão
O que você seria capaz de fazer por amor? Faça o teste!
Por Daniela Pessoa • 10/03/2008

Algumas gostam de ser paparicadas e outras preferem menos grude, algumas são controladoras e fazem marcação cerrada do parceiro, enquanto outras, tranqüilas, não esquentam a cabeça. Existem mesmo muitas formas de amar e cada um tem o seu jeitinho especial de demonstrar o carinho por quem ama, mas a questão é a seguinte: e quando a paixão vira obsessão? Aí mora o perigo! É ótimo cercar e ser cercada de cuidados, mas tudo em excesso pode ser ruim, até mesmo ela, a paixão.

O que você seria capaz de fazer por amor? Faça o teste!

A própria palavra tem uma origem, por si só, muito curiosa. Do latim passione, ela significa tudo de bom - amor ardente, entusiasmo muito vivo - mas, investigado um pouquinho mais a fundo e chegando à sua raiz grega, vemos que pathos significa doença. E quem nunca viu o amor associado à loucura? Todo mundo já disse, pelo menos uma vez, "sou louca por você" para o parceiro. "Os apaixonados são meio exagerados mesmo, isso faz parte do que é o sentimento", explica Magdalena Ramos, professora de psicologia da PUC-SP. Mas cuidado para não levar a expressão loucura ao pé da letra!

Foi uma relação muito perturbadora, porque deixei de prestar atenção em mim mesma, me anulei para viver em função apenas dele

Por amor

Juliana Cerqueira, publicitária, já foi capaz de tudo por quem ela acreditava ser o homem da sua vida. "Nunca fiz tanta coisa por uma pessoa só", diz. E conta: "Ele não me levava a sério, porque não chegamos exatamente a namorar. Foi um romance de carnaval, mas que, para mim, marcou por muito mais tempo. Quando voltei para o Rio e ele, para o Sul, fiquei louca atrás dele", lembra Juliana, que passou dias e dias procurando vestígios do amado em sites na Internet.

"Um dia ele me ligou e foi aí que começamos a nos ver. E nisso foram quatro anos de pura loucura! Fiquei tão apaixonada por ele que cheguei a comprar uma aliança e, para onde quer que eu fosse, lá estava ela no meu dedo. Eu até dizia para as pessoas que eu estava noiva, de tão obcecada que eu fiquei por ele", relembra Juliana.

Mas o que, hoje, a faz rir, no passado trouxe muitas lágrimas. "Ele me traía, eu sofria, mas preferia não levar a sério". Como o dito cujo viajava muito, Juliana conta que se sentia muito angustiada por não poder controlá-lo, por não saber exatamente onde ou com quem ele estava. Aí o jeito era mesmo abstrair... E ficar colada ao lado do telefone esperando algum sinal de fumaça! Quando ela precisava sair, deixava mil recados com o pessoal de casa. E ai de quem não anotasse tudo direitinho! Para Juliana, o importante era estar com o amado 24 horas por dia, mesmo que em pensamento.

Tudo bem, pensar no parceiro e querer cuidar dele é normal, porque, afinal, paixão é isso mesmo. Mas se o sentimento está caminhando para uma paixonite aguda, talvez seja o momento de parar, pensar e observar se o excesso não está te fazendo mal, levando, quem sabe, à paixão patológica, aquela que arrebata num sentido negativo, porque aprisiona. "A pessoa se funde à outra, deixando de enxergar si própria", afirma a psicóloga Patrícia Gugliotti. Ela dá um exemplo: "se o namorado se matricula na academia, a namorada vai atrás e faz o mesmo. Ainda que não goste, ela acaba se obrigando a gostar, esquecendo de si mesma, das suas próprias vontades".

Paixão-problema

Só conhecendo as histórias de quem já sofreu na pele uma paixão dessas para entender até que ponto as coisas podem chegar num amor que não conhece os limites entre o "eu" e o "outro". Janaína Nascimento, advogada, sofreu horrores antes de dar a volta por cima. Ela conta que namorou durante cinco anos e meio um homem por quem se apaixonou perdidamente. "Foi uma relação muito perturbadora, porque deixei de prestar atenção em mim mesma, me anulei para viver em função apenas dele".

Ela deixou de dançar, de sair com as amigas e de fazer coisas que gostava para ficar com o namorado. "Lembro que ficava madrugada afora digitando minha monografia para, no dia seguinte, mesmo cansada, poder ficar com ele", conta. E, mesmo não sendo respeitada e não tendo o valor reconhecido pelo esforço e dedicação por ele, Janaína achava que estava tudo bem. Chegou até a fazer dieta porque o namorado insistiu. "E olha que eu não me sentia mal com o corpo que eu tinha. Mas eu achava que, se ele estava pedindo, eu tinha que obedecer. E fiz a dieta com o maior prazer, nem cheguei a parar para pensar: ‘ele deveria gostar de mim como eu sou, como eu me sinto bem'", conta. Além disso, após ser instigada várias vezes a sentir ciúme, Janaína passou a ter um ciúme doentio do namorado e foi se tornando uma pessoa cada vez mais retraída, porque se deixava dominar pelo amado e pela paixão que sentia por ele.

Coisas de amor obsessivo

Segundo pesquisas da psicoterapeuta Eglacy Sophia, do Ambulatório do Amor em Excesso (Amore) da USP, existem alguns sintomas comuns entre as pessoas "loucas de amor". Fique atenta!

1) Se o parceiro está longe ou ameaça abandonar a amada, podem ocorrer: angústia, taquicardia (aceleração do ritmo do coração), suor, tensão muscular, insônia e períodos de total marasmo alternados com intensa atividade.

2) Cuidado, zelo e preocupação excessivos pelo outro.

3) Tentativas para controlar ou reduzir a obsessão e a impulsão não dão certo.

4) Muito tempo e energia são gastos para controlar o que o parceiro faz ou deixa de fazer.

5) A pessoa deixa de fazer coisas que gosta para viver em função dos gostos e interesses do parceiro. Também são deixadas de lado atividades que geram realização pessoal e profissional.

6) Mesmo com problemas pessoais e familiares, a pessoa não consegue se distanciar do amado, ainda que consciente dos danos que isso está causando.

A psicóloga Patrícia Gugliotti ressalta: "Quem ama de forma obsessiva, só se sente feliz porque o outro existe, é como se sem o parceiro a pessoa não soubesse viver". Segundo ela, a obsessão faz a gente ficar no pé do amado, o que não é nem um pouco saudável para a relação. Isso sem falar no ciúme, também obsessivo. "Ficar insistentemente checando o celular do outro, ouvindo as conversas telefônicas para saber com quem ele está falando, ou analisando as camisas para ver se não encontra algo suspeito, como um cheiro de perfume diferente, é sinal de que a situação pode estar fugindo dos limites", alerta Patrícia.

Alguns especialistas chegam até a associar a paixão obsessiva ao TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), porque o limite da normalidade, segundo eles, acaba quando comportamentos como esses, ligados ao ciúme excessivo, começam a causar transtorno, fugindo do controle e afetando a qualidade de vida de quem está loucamente apaixonado.

A química

Outros se referem à paixão como um vício. Você sabia que a área ativada no cérebro pela paixão é a mesma da obsessão? Pois é, existe uma linha muito tênue entre uma e outra e, no final das contas, a paixão pode acabar se tornando uma droga sem a qual não se pode viver. "Geralmente quem tende à paixão obsessiva são as mulheres que têm histórico de baixa auto-estima ou que já passaram por perdas afetivas muito grandes na vida", explica Patrícia Gugliotti. "Quando uma pessoa faz o possível e o impossível para agradar o outro, isso significa que ela é insegura e tem uma auto-estima muito baixa, não só do ponto de vista amoroso, mas em todos os sentidos", completa a psicóloga Magdalena Ramos.

E para quem pensa que só as mulheres têm tendência a ficarem "doentes de amor", ledo engano. "Antes eram, de fato, as mulheres que se dedicavam mais ao amor", revela Patrícia, mas, segundo ela, nossa cultura mudou e a dona Amélia de antigamente hoje está dividida entre casa e trabalho. "A mulher está canalizando o amor também para o trabalho e os homens têm se tornado muito inseguros", conta Patrícia. Portanto, eles também podem adoecer pela amada, apesar de o contrário ser mais freqüente.

O que é saudável

"Foi preciso adoecer fisicamente para me dar conta de que aquele não era um relacionamento saudável. Precisei quase entrar em depressão para cair na real", desabafa a advogada Janaína Nascimento.

A paixão pode maltratar, mas você não precisa chegar a esse ponto! Ela pode ser muito bem um sentimento saudável, que não prende e nem machuca. Para início de conversa, é importante, segundo a psicóloga Patrícia Gugliotti, se livrar das idéias pré-concebidas de "alma gêmea" ou "você é a tampa da minha panela". "Cada um de nós é uma pessoa inteira, não existe essa coisa de metades". O importante numa relação, segundo ela, é justamente preservar a individualidade - o casal em sintonia sabe respeitar o espaço um do outro, porque senão se corre o risco de virar macaco de imitação ou "Maria vai com as outras". Nada mais prejudicial à auto-estima!

Para a advogada Janaína Nascimento, que se privou do seu espaço e tempo pelo namorado, é essencial colocar si própria em primeiro lugar na vida. "Se a gente não se ama acima de tudo, quem é que vai amar?", questiona. E completa: "amadureci e aprendi a ter amor próprio, a me colocar como prioridade, juntamente com a minha família e meus objetivos, que ficaram enterrados e esquecidos quando eu estava perdidamente apaixonada". A psicóloga Magdalena Ramos frisa justamente isso: para lidar com a paixão e com o amor, todos nós precisamos de maturidade e bom senso.

Lembre-se: obsessão é uma paixão negativa. E mesmo a paixão saudável tem lá seus riscos, porque ela cega. É por isso que a psicóloga Patrícia Gugliotti recomenda nunca se casar no auge da paixão - que dura, em média, de seis meses a dois anos - porque a realidade fica encoberta. É claro que vale a pena viver com toda a intensidade que o sentimento proporciona, mas sem exageros! Sua relação pode ser, sim, muito linda e intensa, mas sem acabar como a de Romeu e Julieta. Dê espaço para a calmaria. "Depois da turbulência da paixão, vem a calmaria do amor", finaliza Patrícia. Para Janaína Nascimento, é de olho no coração - e também na razão - que podemos ser felizes.



Daniela Pessoa   Leia mais deste autor.





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