É que às vezes acho que bebo demais - não água mineral, que essa bebo pouco, mas a que passarinho não bebe. E ter essa desconfiança é mais ou menos como perguntar se engordou: no fundo, a gente sabe a verdade, embora espere ouvir uma mentira.
Eu bebo, sim. No verão, uma seqüência de tulipas. No inverno, seguidas taças. Nunca antes do meio-dia, mas cinco minutos depois. Até sozinha, quando, na hora de deitar, em vez de um copo de leite quente, aprecio uma tacinha de licor. Bebo porque é gostoso, socialmente agradável e porque, se não seguro um copo, não sei o que fazer com as mãos. E, principalmente, bebo porque, depois de ter bebido, me sinto mais relaxada, mais segura, mais interessante, mais bonita, mais sexy e mais desinibida. Sou mais minha versão a álcool.
A hora está no final. Kátia com k coça o nariz e reparo em seu esmalte reluzente. Gosto da cor e gostaria de pintar minhas unhas com ele. Quero perguntar a Kátia com k o nome do esmalte, mas não vejo uma brecha na sessão sobre o álcool e seus efeitos. Kátia com k questiona se existe outra coisa que me faça sentir segura e interessante sem a necessidade de beber três doses de bebida alcoólica. Kátia com k descola as costas da poltrona em um claro sinal de que tenho que ir, embora eu preferisse ficar.
Entro no carro e passo as marchas, procurando a resposta da charada. Erro o caminho.
Na semana seguinte, volto a Kátia com k como quem vai contar ao líder da gincana que conseguiu cumprir a tarefa. Sento de frente para Kátia com k, que está de calça jeans e camisa de manga comprida preta - com a chegada do inverno, Kátia com k abandonou os vestidos floridos.
- Então, Rosaná*!
* esse é o maior defeito de Kátia com k: insistir em fazer do meu nome uma oxítona.
- Como foi a semana? Tudo bem? - ela pergunta com os olhos tão abertos que tenho medo de que capture minha alma.
Dou um sorriso e falo devagar:
- Descobri uma coisa que me faz ficar três doses acima sem beber um único gole de álcool.
Olho para o chão. Silêncio. Olho para o relógio, que está sempre de costas para mim. Suspense. Olho para as mãos de Kátia com k, que costuma reparar nas minhas. Kátia com k é terapeuta corporal e suas unhas estão pintadas com o esmalte reluzente - aquele que gostei.
- Então, Rosaná... O que pode fazer você se sentir segura e interessante, sem álcool?
Rufam os tambores.
- A felicidade.
Kátia com k ri, ri de virar o queixo para o teto. Eu rio também, mas de forma contida - como quem acabou de descobrir a roda, mas mantém a humildade.
Foi outro dia mesmo. Percebi algo diferente em mim: sono fácil, dentes de fora e sobrancelhas separadas. Quando dei por mim, puf, estava feliz.
Venho tentando disfarçar, afinal de contas, não pega bem. Felicidade - está aí um negócio que, como um segredo obsceno, só se conta para os mais íntimos. E, ainda assim, sei, não.
- Nossa, você está com uma cara ótima!
- É que fui à praia...
Balela: é a felicidade que salta pelas narinas.
- Alôa!**
** diferente do "alô", tradicional, adequado para ligações comuns do dia-a-dia e do "alou", com "u" no final, muito utilizado em ligações ruins, o "alôa", terminado em "a", é usado em dias de euforia e funciona melhor quando falado por pessoas do sexo feminino.
- Nossa, que voz animada!
- Ah, é que acabei de ouvir uma piada.
Mentira: ando rindo à toa.
- Feliz? Eu??? Daqui a pouco passa...
(a felicidade é efêmera.)
Procuro mudar de assunto.
- Rosaná - diz Kátia com k, descolando as costas da poltrona -, vou te falar uma coisa que falo para todos os meus pacientes: aproveite!!! Curta essa maré de felicidade!!!***
*** Kátia com k usa muitas exclamações em suas falas.
Fico em silêncio, mas é um silêncio inquieto. Sentada na pontinha da poltrona, Kátia com k pergunta:
- Quer falar mais alguma coisa, Rosaná?
- Qual é o nome do seu esmalte?
Entro no carro e passo as marchas rumo à primeira farmácia. "Castanha" com "c" ou com "k"?
Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.



