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Os castelos já caíram em ruínas, os cavaleiros abandonaram suas montarias, os dragões já perderam seu poder de fogo e as madrastas más morreram encruadas. Mocinhas indefesas e príncipes encantados são coisas de um passado muito longínquo, constrangedoramente ingênuo, não é mesmo? Hum... mais ou menos. Ou será que, lá no fundo, você não anda por aí procurando a espada certa do seu - e só seu - salvador? Aquele que vai chegar cheio de amor pra dar e tudo o mais que é inerente à coisa: vida estável, dinheiro, disposição infinita para discutir a (maravilhosa) relação, predileção por comédias românticas, indiferença por futebol e um apetite sexual que parece funcionar com o seu via telepatia. Seja sincera, portanto: você sonha ou não sonha com um homem desses? Então, príncipe encantado não é só coisa de inocentes donzelas.
No século XXI, com a explosão dos ícones de consumo, o pobre príncipe encantado volta-e-meia ganha feitios de Frankenstein. Respondendo sobre como seria o seu cavaleiro andante, a veterinária Patrícia Murad fez o seu pot-pourri: "O rosto do David Beckham, o corpo do Murilo Rosa, o bom humor do Jô Soares e a conta bancária do Ricardo Mansur", elege. A assistente social Cléa Siqueira também tem o seu, montadinho em sua imaginação. "A boca e a sensualidade do Cauã Reymond, o peitoral do Alexandre Pires, as coxas do Roberto Carlos e a inteligência do Pedro Bial", delira.
"O príncipe encantado é o improvável, o inatingível", define o psicólogo da USP Aílton Amélio, autor do livro "Para Viver Um Grande Amor" (Ed. Gente). Ele tem razão, principalmente a julgar pelas estranhas criaturas imaginadas por Cléa e Patrícia. "Ele é um mito que se manifesta em muitas esferas de um relacionamento. É geralmente um homem de outro nível social, que aceita sua gata borralheira e lhe dá uma vida de sonhos", diz ele. A base de tudo é o chamado princípio da admiração, que é a base da paixão e do interesse.
Segundo Aílton, buscamos pessoas que possuem qualidades que não encontramos em nós. Ao nos relacionar com elas, temos a sensação de agregar essas virtudes externas à nossa própria personalidade. Mas, para que a relação pule dos contos de fada para a prática da vida real, é preciso que haja similaridade entre os dois. "É o que conhecemos como homogamia temperada. Pessoas com objetivos, temperamentos e personalidades comuns, mas que possuem algo que não têm, então, admiram no outro", explica ele.
Quando isso não acontece, o maravilhoso varão e seu cavalo branco, que supostamente vieram para libertar a mocinha das garras do dragão, acabam aprisionando-a de vez. É o excesso de idealização e expectativas, impossíveis de serem realizadas, que transformam qualquer vida sentimental nas trevas de um sótão isolado de castelo. Foi o que aconteceu com a designer Christiane Rosário. "Criei um modelo de homem tão fechado, que nenhum me satisfazia. Deixei passar cada partidão, só porque nenhum deles atendia exatamente ao cara que idealizei. Se tivesse uma mínima atitude diferente do que eu sonhava, já perdia o interesse. Achava que não servia pra mim, não era o meu homem. Nada durava mais do que um mês, sofri horrores. Só consegui me resolver na terapia", lembra.
O mito do príncipe, no entanto, pode ser altamente válido e viver saudavelmente no imaginário feminino. "Ocupando o lugar certo, ele é essencial no processo de admiração pelo outro e pela sensação de saciedade emocional que isso proporciona. Um bom relacionamento não funciona sem essa combinação de elementos comuns e almejados", comenta Aílton Amélio. Ainda mais depois de tantas transformações, em que não é mais preciso bancar a bela adormecida. Os príncipes modernos e suas salvadoras espadas estão por aí em qualquer parte. E, o que é melhor, prontos para serem encantados.
Fernando Puga   Leia mais deste autor.
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