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Hoje, não basta ter um casamento feliz, filhos lindos, uma casa grande e cachorros correndo pelo jardim. Toda mulher também quer ser bem-sucedida profissionalmente. E parece que a batalha diária da múltipla jornada tem surtido efeito: muitas de nós já são o maior salário da casa. No entanto, o que é motivo de orgulho e satisfação para elas, às vezes é motivo de crise para eles. E, nessa briga de saldos bancários (em que o marido entra armado de velhos conceitos), quem acaba pagando a conta é a harmonia conjugal.
Com a mudança de postura do sexo feminino e a conquista do mercado de trabalho, não é de se estranhar que muitos casais vão ter ela como a principal provedora da família. Alicia Castro, advogada, está casada há três anos com o médico Lucas Amorim, que faz residência médica em cirurgia geral. Em função da especialização, é Alicia que arca com as despesas maiores da casa. "O Lucas está num momento decisivo da carreira dele: opta por progredir ou por ficar a vida inteira dando plantão e ganhando um salário mais ou menos. Eu, como mulher, entendo isso e faço a minha parte. Somos bem resolvidos nessa questão", diz ela. Lucas conta que, quando decidiram casar, sabiam que ia ser assim por um tempo, afinal, ele mal tinha terminado a faculdade. "Claro que queria estar ganhando tão bem quanto ela, mas medicina é mais complicado, exige muito estudo e dedicação. O tempo médio de colher os louros acaba sendo maior. Ela não vai se arrepender do investimento em mim", brinca o médico.
É, mas nem sempre a situação é bem administrada pelo marido. A herança cultural e a forma com que foram criados ainda pesam bastante para alguns homens. Para eles, a chefia do lar cabe ao "sexo forte". Ver que a mulher assumiu esse papel, com uma vantagem salarial, entra em choque com sua visão de mundo. "A mulher ganhou o direito de trabalhar e agora vemos muitas delas como a cabeça do casal, ganhando mais. Ainda não deu tempo para que eles vejam isso com segurança. Se nos basearmos na evolução histórica, estes maridos se acostumarão. Mas daí a se sentirem seguros, me parece que será preciso de um tempo maior", observa a psicóloga Nina Maria Góis.
Entretanto, muitas vezes, não são só eles que se ressentem da condição menos privilegiada profissionalmente. Segundo a terapeuta familiar Ana Beatriz Macedo, há também mulheres que, mesmo satisfeitas com seu sucesso na carreira, têm dificuldades em aceitar esta posição de "inferioridade" do companheiro. "O problema é que tanto o homem quanto a mulher foram criados em famílias em que o pai era o responsável por tudo. Então, para eles, a mulher pode até ser bem-sucedida, mas ele deve ser mais. Enfrentar essa questão é difícil para os dois. O exemplo que eles tinham era diferente do que se passa agora", explica.
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