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Carta ao leitor
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Por Rosana Caiado • 14/10/2008

Oi. Tudo bem?

Escrevo da casa de uma grande amiga, que passou por uma cirurgia no último fim de semana. Coube a mim fazer as vezes de enfermeira e irmã - já que ela não tem uma de sangue. Ajudo a levantá-la, me ofereço para pegar objetos em outro cômodo - o que ela costuma recusar -, esquento o almoço, lavo a louça, dou banho, passo o sabonete bem de leve sobre os pontos, lambuzo uma pomada que tem cheiro de gelol e seco os curativos com secador de cabelo na opção de ar frio, que é menos agressivo. Hoje ela me pediu que passasse hidratante em seus pés e falou algo que não lembro exatamente, mas queria dizer que estamos muito íntimas.

A grande novidade é que aproveito os momentos em que ela está descansando para ler. Não sem embaraço, devo admitir que não lia nada que tivesse mais de três páginas desde o início do ano. Ou seja, minha leitura estava restrita a matérias de jornais e revistas, bulas de remédio e cardápios de bar. Não consigo lembrar o nome do livro escolhido e tenho que correr até ele para checar o nome na capa: "Extremamente alto e incrivelmente perto", Jonathan Safran Foer.

Nunca acreditei quando uma pessoa diz que não gosta de ler. Ela gosta, claro que gosta, todo mundo gosta. Se diz que não, é porque ainda não encontrou um autor com o qual se identifique nos temas abordados, na linguagem e no ritmo. Encontrar um livro na estante é mais ou menos como arranjar um namorado - pode demorar, mas acontece. Aconteceu comigo: estou apaixonada. Perdidamente.

Penso no livro o tempo inteiro, levo pra onde quer que eu vá e morro de medo que, um dia, isso tudo acabe. Das 360 páginas, me faltam 130 e já começo a sofrer a dor da nossa separação.

Me forcei a voltar a ler porque meu vocabulário estava reduzido a cerca de dez palavras, incluindo "é", "não", "porque", "por que", "por quê", "por favor", "chocolate" e "caraca". Achei que ler me ajudaria a escrever alguma coisa razoável, mas só hoje escrevi três ou quatro colunas que abandonei na metade. A primeira falava de amor, sempre o amor, e tinha um grande nariz de cera até chegar ao que eu realmente queria dizer e ocupava menos de três linhas: uma criança de sete anos me abraçou e disse "amo você"; eu achei a coisa mais linda do mundo e disse "eu também".

A segunda coluna abandonada era em forma de diálogo, que é um recurso digno para quando não surge uma idéia de muito fôlego - é mais fácil preencher uma página com

palavras

alinhadas

verticalmente.

Daí, não precisamos fazer explicações sem importância (como essa) para ocupar mais algumas linhas.

A terceira era tão desinteressante que sequer me lembro o mote e a quarta dizia alguma coisa sobre a Teoria de Mathias, que explica por que as mulheres sofrem mais do que os homens.

Então, caro leitor, não há coluna, só essa carta para um ou outro que tenha dado falta. Acho que vou tomar um banho morno, que é quando vêm minhas melhores idéias, ainda que as esqueça logo em seguida.

Minha amiga está chamando.

Um beijo carinhoso,

Rosana



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





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Comentários (1)
  • Eliz linda


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