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Às duas da manhã
O amor não pode acabar em um bater de porta...
Por Rosana Caiado • 11/02/2008

Passa das nove quando me estico no sofá e ligo a tevê, sem saber que a novela da vida real é que vai tomar a minha atenção. Os vizinhos da direita, o casal Fofinho, elevam o tom de voz do lado de lá da parede:

- Quem faz isso uma vez, faz duas, faz três! - ela grita, a plenos pulmões.

Ele fala baixo, pede calma. O efeito é inverso.

- Tenho nojo de você! Nojo!

Resumo da semana: aos dois anos de matrimônio, Fofinha desconfia de que foi traída por Fofinho. Fofinha tira satisfações e Fofinho se diz inocente. Fofinha não acredita e grita, a plenos pulmões, que sente nojo de Fofinho.

Quero dizer para ela que a solidão se ajeita na cama às duas da manhã. Você não vê, mas ela, a solidão, não arreda pé.

E meu coração aos saltos.

Na inexistência de testemunhas, a traição só é certeza caso confessada. Fofinho, culpado ou não, faz o que tem que fazer: nega - talvez com pouco vigor. Cairia bem uma dose de indignação diante de tamanha calúnia, mas ele limita-se a pedir calma.

Ela anda do quarto para a cozinha, da cozinha para a sala, a passos pesados. Minha tevê já está muda. Eu, boquiaberta. Viro personagem dessa novela, a fofoqueira, e encosto a orelha na parede. Fofinha vira duas vezes a chave na porta da frente e vai para o hall dos elevadores, de onde tenho imagens em tempo real, através do olho mágico: ele, de cabeça baixa, agarra a mala recém-feita e ela, mãos na cintura, manda soltar. Ele jura, pede pelo amor de Deus. Chega o elevador. Ela se despede:

- Morra!

Nunca ouvi declaração de amor maior. Ela quer passar o resto dos seus dias com a cabeça no peito peludo dele. Quer cantar no videokê com ele. Quer usar o vestido que ele gosta. O resto é cena.

Fofinho certifica-se de que o elevador desceu e fecha a porta. Começam os comerciais. Escorrego pela parede, ouvindo "All by myself". Quero ir atrás da Fofinha, quero pedir que ela volte, quero avisar que vai doer, que ela vai chorar, vai sofrer. Quero dizer para ela que a solidão se ajeita na cama às duas da manhã. Você não vê, mas ela, a solidão, não arreda pé. Quero dizer que ela vai ter que fingir que está tudo bem, mas que as fotos mostrarão seus olhos tristes. Quero descer correndo pelas escadas e dizer que ela vai ter insônia, e que, quando uma de suas pálpebras começar a pulsar desritmadamente, é nervoso. Que o amor não acaba de uma noite pra outra, que ela prometeu que era pra sempre, que ela fez planos, lembra? Nenhum casamento termina com um bater de portas - só na televisão.

Duas da manhã, ouço o som das rodinhas deslizando no hall dos elevadores e corro até o olho mágico, de onde tenho imagens em tempo real. Ele carrega as malas dela para dentro de casa, mãos em suas costas, narizes vermelhos. Do lado de lá da parede, se abraçaram com a força de uma multidão sob o silêncio da intimidade.



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





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