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Era uma vez o amor intenso, a paixão avassaladora. Fórmula perfeita, tudo para dar certo. No entanto, entra em cena um vilão: o preconceito. Ele traz à tona julgamentos infundados a respeito do amor, baseados apenas em detalhes como classe social, cor da pele, cultura e idade - o tipo de discriminação que pensamos já estar superada. Será? Infelizmente, não. Muitos casais ainda encontram na discriminação o principal obstáculo para o romance e ouvem dizer que rico e pobre, negro e branco, velho e novo não se misturam. Será que tais histórias podem ter o merecido "felizes para sempre"? No embate amor versus preconceito, há enamorados que desafiam padrões sociais, amigos e até a família. Até onde você iria?
Da ficção para a vida real
Contra Dé e Nina, o mundo. A favor deles, o amor. Nada mais atual do que o filme "Era uma vez...", do diretor Breno Silveira, para retratar os dissabores do preconceito na vida de um casal disposto a lutar pelo relacionamento a qualquer preço. De um lado, Dé, filho de empregada doméstica e morador da favela do Cantagalo, no Rio. Do outro, Nina, filha única de uma família rica da Avenida Vieira Souto, em Ipanema. Os dois se apaixonam e, juntos, vivem um romance tido como improvável. Alvos de críticas e olhares enviesados devido ao abismo econômico e social existente entre eles, Dé e Nina são o retrato, na ficção, da intolerância que também balança o romance de muitos Dés e Ninas do "mundo real".
É o caso da nutricionista Giovana* e do técnico de informática Mateus*, juntos há seis anos. "Foi amor à primeira vista", derrete-se a moça. Logo que se conheceram, engataram um namoro sério, o que assustou os pais dela. "Eu achava que os meus pais implicavam com ele por ser o meu primeiro namorado firme. Mas, aos poucos, percebi que não era exatamente isso. O preconceito velado foi se tornando cada vez mais explícito e insuportável", conta. Giovana mora na Zona Sul do Rio e Mateus, em um bairro da periferia da cidade. Ela conta que os pais não aceitavam essa diferença. "Eles diziam que o fato de a filha ter escolhido um namorado 'pobre' era até aceitável, mas, mulato, já era demais. ‘Netinhos negros? Nem pensar!', como se ser humano tivesse pedigree!", revolta-se.
A solução foi namorar às escondidas. "Era bem difícil, porque os meus amigos também diziam que não ia dar certo, que a diferença era muito grande, que a gente não ia ter papo, que depois de passada a química de pele não sobraria mais nada. Cheguei até a ouvir que o Mateus era interesseiro, que queria o status de namorar uma menina ‘rica' e branca", diz Giovana.
Pré-conceitos
De acordo com a psicóloga e escritora Olga Tessari, o ser humano teme tudo aquilo que é diferente e, por isso, faz julgamentos antecipados. "Você oferece um alimento estranho, desconhecido, e a pessoa logo diz 'eu não gosto', mesmo sem nunca tê-lo provado", exemplifica. Sendo os relacionamentos baseados em afinidades, é de se esperar, portanto, que seja difícil lidar com as diferenças. "Por isso, o primeiro impulso da família e dos amigos é mesmo discriminar. Mas, no fundo, eles desejam apenas o melhor e esquecem que o que é bom para eles nem sempre é o que é bom para o outro", explica a psicóloga.
"Por medo de ter que agüentar mais e mais julgamentos, cheguei até a esconder o Mateus de pessoas que ainda não o conheciam", confessa Giovana. Então, o namoro começou a desandar. "Ele dizia que me amava, mas que não queria me ver em pé de guerra com o mundo inteiro. Lembro exatamente das palavras dele: ‘Não quero mais que a gente seja invisível. Acho que, isso sim, faria a gente não dar certo'. Então, decidi enfrentar o preconceito de uma vez por todas", relata.
A nutricionista aproveitou um almoço de família para resolver a situação. "Quando apareci de mãos dadas com o Mateus na casa dos meus tios, foi um choque geral. Lembro dos olhares de espanto até hoje", diz. Antes de dar margem a qualquer comentário, disparou o discurso que, segundo ela, havia treinado a semana inteira. "Eu estava tão nervosa que nem lembro direito o que eu falei, mas garanti que estava muito feliz. Se ia dar certo? Nem eu, nem ele sabíamos, mas eu disse que achava que merecíamos tentar. Chorei muito, meus pais viram que eu estava sofrendo", relembra Giovana. E foi então que a família começou a dar uma chance ao rapaz. Aos poucos, os amigos também. "Quem ouve não acredita, parece até novela, né?", ri Giovana. "Agora todo mundo respeita muito o Mateus, viram que ele não é melhor nem pior do que ninguém e que é uma boa pessoa", comemora.
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