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- Eda
Fagundes
Estamos acostumados a ficar perplexos frente a crimes hediondos cometidos contra pessoas amadas por seus assassinos. Desde criança ouço a frase "quem ama não mata", entretanto devo confessar que nunca concordei com ela. Calma! Sei que minha afirmativa causa estranheza, mas vou explicar.
O amor é um sentimento que pressupõe cuidado e zelo. Queremos que as pessoas que amamos sejam felizes. Essa posição, que deveria reger nosso sentimento amoroso o tempo todo, infelizmente não corresponde à verdade. O amor generoso e altruísta parece encontrar barreiras em nossos sistemas emocionais, principalmente quando se trata dos amores românticos.
Será que se fizermos um exame de consciência cuidadoso, podemos afirmar que sempre agimos para o bem do outro, quando esse outro, por exemplo, é nosso namorado, noivo ou marido? Poucos vão responder sim a esta pergunta. Quando amamos queremos ser correspondidas na medida e da maneira que podemos entender. O dia que o ser humano conseguir amar em liberdade, com certeza estaremos chegando a um nível de segurança e civilidade que nos levará a relações muito mais felizes.
Nas relações de pais e filhos, nas quais, sem dúvida alguma, o amor é mais generoso, assistimos cenas diárias em que o bem do filho é negligenciado em nome do próprio amor. Muitas vezes os pais acham que sabem o que é melhor para o filho. Em nome do amor, podem causar danos graves à trajetória destes. O desrespeito e falta de habilidade para lidar com as diferenças, somados ao nosso universo de medos, faz com que tenhamos atitudes centradas no que julgamos correto, independentemente da vontade e desejo de nossos filhos.
Estou me referindo às situações aparentemente sem gravidade, mas que podem interferir gravemente na felicidade das pessoas. Ainda hoje temos pais que interferem na escolha profissional dos filhos, em suas relações com os amigos e em suas escolhas amorosas. Felizmente, na maioria das vezes, tais interferências levam a conflitos. Os filhos reclamam seus direitos e acabam por perceberem que não precisam corresponder à expectativa de seus pais o tempo todo para serem amados. Não podemos esquecer que em muitas famílias o grau de repressão e neurose chega a inibir a reação dos filhos, que vão crescendo com o propósito de agradar aos outros. Quando percebem o estrago feito em suas vidas, tendem a substituir o sentimento amoroso por mágoa e sofrimento.
Entre casais nem se fala. A restrição à liberdade, o nível de cobrança e a prepotência de achar que sabemos o que é melhor ou certo podem atingir níveis muito patológicos. Aqui, o sentimento de posse e o ciúme são os ingredientes fatais.
Quem ama pode ser levado a cometer atos tão trágicos como matar. Estamos cansados de assistir casos desse tipo nos noticiários. O amor, infelizmente, não imuniza contra a raiva, o ciúme patológico, ou a impossibilidade de ser feliz sem a garantia do amor eterno. Pessoas com personalidades neuróticas também amam.
Quem ama não mata? Não posso responder a esta pergunta de forma absoluta. A única coisa que podemos afirmar é que não é o sentimento amoroso que causa a agressão. Não é movido pelo amor que somos abusivos, em qualquer nível, com as pessoas queridas. Simultaneamente há a presença de distorções emocionais que podem levar a desequilíbrios sérios.
Na próxima semana vamos continuar com o assunto falando um pouco sobre os diferentes níveis de agressão nas relações amorosas.
Até lá!
Eda Fagundes é psicóloga clínica com longa experiência nos tratamentos de casal, família e transtornos da sexualidade.  Leia mais deste autor.






